quatro e meia da manhã de outra manhã.
Os dias costumam se repetir, o sol nasce em todos eles, mas alguns dias não são tão repedidos assim. Somos viciados em rotina e queremos acreditar que tudo está sob controle. A quebra de um ciclo é como pisar em falso, não ver o degrau, e tu só reparas quando o horizonte à tua frente treme, e sobe um pouco do nível que estava antes. Um baque seco, uma súbita exclamação, um chão que não está lá, ou um poste que tu não vistes. BOOM, te pega de surpresa.
Tu vê luzes piscando amarelas, azuis, vermelas, verdes, purpurina tilintando azul na frente dos teus olhos, o desenho de veias escuras e vermelhas ficando mais nítidas no canto da tua visão a cada pulsação. Uma leve tontura, um zunido no ouvido, e um cheiro de sangue que brota das tuas narinas. Tu nunca te acostuma com isso. Aquele embrulho no estômago e tu leva tuas mãos até o teu rosto. Teu cérebro mandando imagens aleatórias e tentando dar algum sentido pra aquilo no momento de confusão, tu simplesmente não sabes o que dizer.
O mundo vive embreagado no tédio, mas a verdade é que ninguém quer uma parada brusca, uma guinada, um sobressalto. Ninguém quer trocar um problema por outro, um prazer por outro, um problema por prazer, um prazer por um problema. Ninguém quer quebrar o ciclo, nem mudar de vida, nem ser nada maior. Ninguém quer sentir o impacto. Um impacto forte o suficiente faz com que teu cérebro balance dentro do teu crânio como um badalar de sino, e se for forte o suficiente, o teu cérebro esmagado contra a parede da tua prórpria cabeça vai mandar uma descarga elétrica para a tua espinha dorsal e vai fazer com que todos os teus membros entrem em falência instantânea, e que tu percas os sentidos.
Imagine um disjuntor estalando e desligando a força da tua casa para não queimar a tua tv. Isso se chama nocaute. Te pega de surpresa. Tu nunca te acostuma com isso.
Nós passamos a vida evitando o nocaute. Evitando o soco direto vindo no nosso nariz. Soco após soco, apelamos para o clinch até ficarmos exaustos numa luta onde não se ganha por pontos. Ninguém quer desferir o soco, e muito menos alguém quer levar o soco, sair com o olho roxo e apertado reluzente da pele esticada e inchada.
Uma luta infinita de homens e mulheres suados e exaustos e pesados que morrerão frustrados por nunca escutarem o gongo soar. O ciclo jamais se quebra.
Mas existem dias que o sol nasce, e alguém te soca a cara. Tu vê as luzes brancas e amarelas e vermelhas e verdes. Tu cai no chão e descansa.
E acorda pra um adversário melhor.
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